sábado, 4 de junho de 2011

Leitura e interpretação da Piedade Popular: forma e desenvolvimento da piedade popular - Prospectiva histórica


Fonte: Pe. Cosimo Semeraro, sdb.
Professor e historiador, UPS-Roma.
Tradução: Pe.  João Mendonça, sdb.
Breve Premissa:

Sem dúvida o tema é importante e delicado para a vida da Igreja: depois do Concílio Vaticano II, as variadas reflexões históricas, teológicas e pastorais nos recordam isto. Muitos Bispos, Conferências Episcopais regionais e nacionais dedicaram tempo e reflexão para o tema[i].

1ª. Parte: Algumas questões terminológicas no desenvolvimento histórico:
No tratamento da piedade ou religiosidade popular, muitas vezes, tanto nos estudos especializados como também na imprensa e na mídia, as formas de aproximação são diversas e a terminologia usada demonstra interpretações muito diferentes, surgindo confusões, com conseqüências negativas na pastoral.

Isto nos permite fazer algumas observações introdutivas sobre os termos como fé, religião, religiosidade e piedade popular (como também de sua relativa expressão sobre exercícios piedosos e devoções) para evitar ambigüidades e confusões. Faremos este trabalho de forma dialogal e esquemática, sintetizando e fazendo referencia a quanto dizem outros autores, como G. De Rosa, G. Agostino, V. Bo, M. Pedico entre outros[ii].

Tentaremos responder a três perguntas:

1. Quais são as terminologias freqüentes para indicar o fenômeno da expressão popular da fé!

· Religião popular: é usada geralmente para indicar, segundo a ideologia e interpretação marxista, uma religião de classe subalterna em oposição à outra dominante ou oficial;

· Fé popular: é o termo que deveria indicar as expressões práticas das pessoas segundo a fé professada. Contudo, nem sempre as expressões classificadas como fé popular têm este significado e referência; portanto, o termo se presta para ambigüidades;

· Religiosidade popular: com este termo se entende a efetividade da fé e da religião nos comportamentos humanos. Trata-se de uma experiência universal, porque cada povo exprime de forma diversa sua visão de transcendência, natureza, sociedade e história através das mediações culturais. Religiosidade popular, portanto não se relaciona necessariamente à revelação cristã.

· Piedade Popular: no Sínodo dos Bispos de 1974 o cardeal Pironio sintetizou e definiu a piedade popular: a maneira como o cristianismo se encarna nas diversas culturas e etnias sendo assim, vivido e manifestado no povo;

O termo na história mais recente do Magistério Eclesiástico

Paulo VI chamou muitas vezes a atenção sobre a riqueza da piedade popular recordando que ela manifesta uma sede de Deus que somente os simples e os pobres podem conhecer; os tornam capazes de atos de generosidade e de sacrifícios até o heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; comporta um sentido agudo dos atributos de Deus: paternidade, providência, presença amorosa e constante; gera atitude interior raramente observado no passado com a mesma intensidade: paciência, sentido da cruz na vida cotidiana, desprendimento, abertura aos outros, devoção (Cf. Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, nº 48).

O termo piedade popular foi também adotado por João Paulo II na Exortação Apostólica Catequesi Tradendae (1979), na carta Apostólica Vicesimus quintus annus (1988). No Código de Direito Canônico de 1984, no entanto o Catecismo da Igreja Católica, nos números 1674-1676 usa o termo religiosidade popular. A 4ª instrução para uma correta aplicação da Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia (nn. 37-40) Varietates legitimae, publicada em 1994, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, no número 45 usa o termo piedade popular. No Diretório da Sagrada Congregação para o Culto Divino, mesmo tendo presente a exortação feita pelo Papa João Paulo II na audiência já citada para esta Congregação, usa o termo religiosidade popular, dando, porém, um sentido mais próximo à piedade popular, do Sínodo de 1974. Tentaremos agora responder a uma segunda pergunta.

2. Quais são as características da piedade popular?

Poderíamos elencá-las assim:

1. Espontaneidade: Aquela que nasce mais do sentimento de que da razão; frequentemente se expressa mais na criatividade do que em rituais repetitivos;

2. Festiva: Superamento do monótono, da rotina cotidiana;

3. Experiência do transcendente: Une diretamente a uma experiência do transcendente, muito além de cada discurso racional;

4. Memória e partilha: porque a piedade popular é uma mistura de recordações, da própria experiência, do desejo daquilo que a une; fundamenta-se sobre a fé recebida (memória) e sobre aquela que se comunica de modo coletivo ou particular (partilha);

Enfim, a terceira pergunta:

3. Como se expressa e quais são as formas da piedade popular?

Podemos responder que são múltiplas e diversas. Podem ser reunidas em torno de algumas formas:

· linguagem orante: aparece nas orações, nos cantos, nas práticas devocionais que exprimem louvor, agradecimento, súplica e pedido de perdão;

· momentos celebrativos: acontecem nas ocasiões de festa. Entre eles podemos recordar os exercícios de devoção ou práticas de novenas, tríduos e coisas semelhantes;

· a ritualidade extralitúrgica e paralitúrgica: como a representação da via-sacra;

· os itinerários: penitência, sobretudo as peregrinações aos santuários;

· os gestos oblativos: formas de promessas, ofertas. Como atos de fé e expressões de oração-invocação-gratidão, tais gestos revelam um itinerário espiritual, uma memória;

· objetos de consagração: uso de hábitos, escapulários, como sinal de pertença e forma de consagração;

2ª. Parte: Desenvolvimento histórico:

Um lugar de destaque, na vida dos primeiros cristãos, ocupava a oração que santificava os momentos mais importantes do dia. Entre elas a mais recomendada era a recitação do Pai Nosso. Era rezada de joelhos em sinal de penitência; às vezes, principalmente no tempo pascal, ficavam de pé com os braços abertos. O sinal da cruz marcava os gestos, segundo o testemunho de Tertuliano (+222). As imagens pintadas ou esculpidas (das quais temos valiosos exemplares nas catacumbas) serviam como meio para acrescentar o fervor da devoção.

O culto dos mártires, que aparecem já nos primeiros tempos do cristianismo, diminui no século IV, ficando limitado aos lugares do próprio martírio ou da sepultura.

Depois das perseguições, as honras foram dadas àqueles que se destacaram pela virtude e piedade, especialmente os eremitas e os monges, que passaram a ser venerados pelos fiéis.

Entre os anjos o mais venerado era São Miguel Arcanjo: notável fonte de arquitetura e iconografia, como Mont-St-Michel na França e Monte Santo Ângelo em Gargano, que nos atestam a notável ressonância histórica e geográfica.

O culto a Virgem Maria, cuja veneração aparece desde a primeira antiguidade cristã, se manifestou especialmente quando Nestório (+440) fez de tudo para contestar sobre sua maternidade.

O culto das relíquias se desenvolveu junto ao culto dos mártires. No século IV houve um grande incremento na veneração das imagens, que consistia nas genuflexões, nos beijos, no acender velas e lâmpadas, na oferta de incenso e outros objetos diante das imagens. Também as peregrinações começaram a ser populares naquele tempo. Cada país tinha o seu lugar particular, para o qual as pessoas iam com devoção: por exemplo, na França tinha o sepulcro de S. Martinho de Tours, na Itália, o de São Felipe, na África, o de S. Cipriano [...] Meta de peregrinação foram às catacumbas e, sobretudo a Terra Santa, especialmente depois do aparecimento ou criação da Santa Cruz (329).

Na primeira metade da Idade Média, também como oposição aos que não aceitavam essas práticas, o culto das imagens tomou novos rumos, especialmente no Ocidente. Junto com as imagens cresceu o culto às relíquias. Depois do século VII e VIII quando os corpos dos mártires foram transportados das catacumbas para as basílicas, surgiu uma verdadeira paixão pelos corpos dos santos e pelos objetos que pertenceram a eles. Os abusos começaram a aparecerem. O Sínodo de Paris do ano 822 lamentou-se que as orações só aconteciam se tivesse uma relíquia presente. O aparecimento de muitas relíquias falsas e roubos eram frequentes.

O culto aos santos tomou grandes proporções durante este período medieval, especialmente o de Nossa Senhora, sendo o sábado lhe dedicado (Nossa Senhora em sábado). O túmulo dos principais santos (Pedro e Paulo em Roma, S. Tiago em Compostela na Espanha, S. Martinho de Tours na França). Todos eles se tornaram meta de peregrinação. Porém, se de uma parte este desenvolvimento era favorecido pela Igreja, de outra parte era necessário estabelecer uma justa medida para preservar os fieis das praticas supersticiosas dos pagãos. Para o culto das pessoas mortas com virtude de santidade e para a introdução de novos santos numa diocese, foi decidida, antes do tempo de Carlos Magno, que a voz do povo ou a aprovação do bispo seriam necessárias, práxis já vigente na Igreja Grega. O Sínodo de Leptine (743-745) tinha proibido considerar como santos os fieis falecidos; o Sínodo de Frankfurt (794) tinha prescrito que não deveriam ser venerados os santos desconhecidos, como também era proibido construir capelas para eles. Uma lei de Carlos Magno prescrevia que o bispo era a única autoridade legitima para reconhecer santos e construir capelas para com os nomes dos mesmos. Finalmente o Papa Gregório IX, em 1234, reservou a canonização unicamente para a Sé Apostólica.

Sob a pressão dos fervorosos religiosos do século XIII, especialmente, sob a influência das ordens mendicantes, a piedade popular adquiriu um caráter mais individual. A devoção a Paixão de Jesus, que aparece claramente com S. Pedro Damião, o primeiro que fala das cinco chagas, adquiriu uma notável popularidade. Como também a devoção ao Santíssimo Sacramento, do qual foi instituída a festa (1264), universalmente solenizada com procissão a partir do século XIV. Não obstante isto, a devoção aos santos e das relíquias continua a se difundir, sobretudo, depois do avanço das cruzadas e da conquista de Constantinopla (1204): o ocidente foi literalmente invadido por relíquias, muitas delas multiplicadas. Para evitar os atropelos e o perigo da incredulidade, bispos e papas intervieram e o próprio Concílio Laterano IV (1215) prescreveu que para a veneração de novas relíquias seria necessária a aprovação do Sumo Pontífice. Entre as relíquias medievais a mais importante foi a Sagrada Sindone, que tinha umas 40 réplicas espalhadas pelas cidades, nenhuma delas reconhecidas oficial e seguramente como autênticas até hoje.

Um desenvolvimento especial, entre as novas ordens religiosas (especialmente entre os Carmelitas e os Servos de Maria), como entre o povo, assumiu no século XII e XIII o culto da Virgem Maria. Às orações usuais do cristianismo, que foram, até do século XII, o Pai Nosso e o Creio, agregou-se a Ave Maria, que inicialmente era constituída somente da palavra do Anjo e de Santa Isabel. Na segunda metade do século XIII, provavelmente no papado de Urbano IV, foi acrescentada a palavra Jesus Cristo, Amém, e no século XV, na hora da nossa morte. A segunda parte, assim como rezamos hoje, apareceu no século XVI e somente no século seguinte se torna comum. Da oração da Ave Maria nasceu com gradual desenvolvimento, entre o século XII-XVI, o “santo rosário”, que, com o escapulário se tornou uns dos meios mais populares da devoção Mariana. Outra devoção a Nossa Senhora, ainda praticada, o Ângelus, começou no pleno período medieval, com uso, no século XIII, ao toque dos sinos das igrejas.

Com uma indulgência concedida pelo papa João XXII àqueles que, ao escutarem os sinos, recitassem uma ou mais vezes a Ave Maria, ajudou a difundir a pratica rapidamente. No inicio do século XIV o uso dos sinos pela manha já era uma prática comum nesta devoção. As condições para se conseguir indulgências eram: rezar uma ou mais Ave Marias, um ou cinco Pai Nossos em honra das chagas de Jesus, sete Ave Marias em honra das sete alegrias da Virgem Maria, etc.

No final do século XIV começou o costume de tocar os sinos ao meio dia e se rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria e, algumas vezes, um Salmo para conseguir a indulgência. O Ângelus na nossa forma atual remonta ao século XVI e somente no século seguinte se tornou prática universal. O Papa Benedito XIV (1724) acrescentou uma indulgência particular.

Juntamente com a devoção à Paixão, particularmente relacionada às cruzadas e as práticas das ordens mendicantes, apareceu a prática da Via Sacra que acrescentou, com variações diversas mais de 41 estações. Difundida, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, especialmente no Lazio, com São Leonardo de Porto Mauricio.

Com o Humanismo e o Renascimento se assiste a um processo de individualização subjetiva da devoção. As confrarias, comprovam isto, pois cresceram sem preocupação social e de caridade, tendo interesses devocionais religiosos, como o culto a determinados mistérios da fé (S. Sacramento, O Sangue de Cristo, a Santa Cruz), inclusive de alguns santos, Santa Ana, Santa Úrsula, São Sebastião e Maria com diversos títulos; tornou-se comum sufragar os mortos e as almas do purgatório.

No âmbito das confrarias surge a pratica das Quarenta horas de adoração ao Santíssimo Sacramento. Em 1527 foi instituída em Milão uma confraria que se empenhava em repetir a adoração eucarística quatro vezes ao ano. Por iniciativa de São Filipe Néri e dos jesuítas, as Quarenta horas foram fixadas nos dias que precediam a quarta-feira de cinzas. Clemente VIII introduziu esta prática em Roma no ano de 1598 e aos poucos foi sendo difundida em toda a Igreja.

Em geral nas manifestações de piedade do tempo da Contra-reforma e do Barroco era muito forte o apelo à exterioridade e a sensibilidade. Tornou-se comum nesta época as peregrinações e as procissões. As devoções tradicionais a Santíssima Trindade, aos mistérios da Vida de Jesus Cristo, a Virgem Maria e outros santos foram enriquecidos com outras formas.

Nesta época (século XVI e depois da batalha de Lepanto) foram divulgadas as Ladainhas (Pio V inseriu a invocação Maria Auxiliadora dos Cristãos), aprovadas pelo Papa Sixto V; enquanto as ladainhas dos santos tinham este privilégio com inserção no breviário romano, pedido pelo Concilio de Trento. No ano de 1602, Clemente VIII decretou que nenhuma outra ladainha poderia ser usada nos exercícios públicos. Todavia com o grande desenvolvimento da devoção ao Coração de Jesus, Leão XIII, no ano de 1898, introduziu uma ladainha própria, enquanto no ano de 1861, com Pio IX, era introduzido o Nome de Jesus. A ladainha de São José (composta pelo cardeal Lépicier) aparece somente no ano de 1909 com Pio X.

Tornou-se emblemática a decisão do Concílio de Trento da utilização da Língua Latina para a liturgia. Determinou-se uma separação entre celebrantes e fieis fisicamente presentes, mas ocupados com práticas de piedade substitutas. Deste modo, a espiritualidade será alimentada pela piedade popular, feita de devoções, exercícios piedosos, mesmo dentro da liturgia, uma situação que se tornou aguda e prevaleceu no calendário litúrgico do santoral sobre o temporal até consentir que o mistério da vida de Cristo fosse ofuscado por outros modelos. A influência das conseqüências desta mentalidade tridentina foi longa e chegou à metade do século XIX com o movimento litúrgico e uma mudança de rota.

A devoção dos fieis do nosso tempo talvez seja mais intensa e profunda que no passado, o equilíbrio entre piedade litúrgica e privada é geralmente melhor conservada. Os Congressos Eucarísticos internacionais e nacionais (de 1881) tornaram-se autênticas manifestações publicas dos fieis, no mistério central do cristianismo.

Com a devoção ao Sagrado Coração e a Eucaristia (comunhão frequente) também foi cultivada a devoção a Maria: rosário, mês de maio, peregrinações aos santuários marianos, especialmente em Lurdes de 1858 e Fátima de 1917. Aos santos dos tempos passados (Santo Antonio, Santa Rita), são acrescentados alguns novos (Padre Pio, Madre Teresa...). Em geral a piedade moderna tornou-se menos exuberante e mais essencial e está assumindo um caráter trinitário, cristocêntrico, mariano e eclesial.

Primeiro balanço avaliativo histórico

Esta breve resenha histórica sobre a piedade popular nos ajuda a entender como é fácil estabelecer grandes valores e apontar riscos de possíveis ambiguidades na piedade popular:

1. De fato, como sinal do espírito, toda manifestação da piedade popular apresenta uma interioridade, uma exigência de contato vital com o mistério do divino. Isto foi colocado com maestria pelo Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi.

Tal interioridade é exigência do divino, mais ou menos de forma consciente, e pode ser comprovado pelo Evangelho. Às vezes não se desenvolve suficientemente na vida por carências devido a alguns fatores, entre eles a ausência de formação cristã e a pouca acolhida na pastoral.

2. A piedade popular corre o risco de se contaminar com deformações e superstições quando, sem uma clara adesão de fé, se limita mais aos desejos imediatos do que aos fundamentais [mágico]; acentua assim o tradicionalismo, até o fanatismo e o individualismo que não deixam espaço para a comunhão e se transformam numa alienação da realidade à margem da Igreja.

3. Como conseqüência, a piedade popular, sobre o plano da experiência histórica da igreja, não pode ser combatida, destruída, mas purificada dos riscos e ambiguidades, consolidada no aspecto positivo, expressando na relação com Cristo vivente na Igreja, com a Palavra, a liturgia e a comunhão eclesial.



[i] Podemos elencar pelo menos o Sínodo de 1974, Exortação Apostólica de Paulo VI de 1975; as orientações propostas para o Ano Mariano de 1987 pela Congregação para o Culto Divino; a mensagem do Papa João Paulo II na Assembléia da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos no ano de 2001; o recente Diretório sobre a Piedade Popular e liturgia da Congregação para o Culto Divino.

[ii] Por uma questão prática e de espaço optamos por não traduzir todas as notas.




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